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De camaleoa a passarinha

Estive num processo de ostracismo terrível, sentindo-me inadequada em todos os lugares, com o constante desejo de que alguém me dissesse quais são as regras a serem seguidas em cada situação. Eu queria saber quais eram os limites, para não correr o risco de errar. Queria saber o que esperavam de mim para que eu pudesse entregar a ação a partir do desejo do outro e não de quem eu estava sendo naquele momento.

Ser é coisa muito complicada, afinal de contas quem eu sou? Como posso ser alguma coisa se mudo a cada instante? As certezas que tenho hoje não serão as mesmas amanhã, então como posso definir quem sou? Ser parece se tratar de algo rígido e estático e eu não sou nada disso! Pensando nisso cheguei à conclusão de que posso falar apenas do que estou sendo agora, com a consciência de que esse ser já não é mais o mesmo de ontem e certamente não será o mesmo no segundo seguinte. Também não posso esperar que o meu ser de amanhã faça algo por mim hoje, então não posso me cobrar para além daquilo que sou capaz de realizar neste momento, porque só posso trabalhar com o que sou agora.

Mais difícil do que ser é ser autentico, para ser eu precisei me entender com o tempo e com os tempos de mim, para ser autêntica tenho que lidar também com as expectativas dos meus antepassados, dos meus amigos, das pessoas que me cercam, dos cargos que ocupo, dos ambientes que frequento, do tempo em que vivo, da cultura em que estou inserida, do meu sexo, da minha etnia, da minha classe social... Para poder me ser, inteira e autêntica, preciso frustrar muitos planos que fizeram para mim, preciso compreender meus próprios limites para entender onde eu termino e onde começa o outro, preciso vencer o medo da rejeição e da inadequação, preciso acolher todas as versões de mim, ser gentil comigo mesma, aceitar quem eu fui e quem eu sou e acreditar intensamente na capacidade que tenho de fazer coisas que só eu posso fazer, simplesmente porque ninguém além de mim pode me ser.

Fui passeando pela vida como camaleoa até aqui, adequando-me a cada situação, espaço ou relação a partir do que era alheio a mim, esperando as instruções, entregando o que eu sentia que era exigido de mim. O camaleão muda de cor para se proteger e eu me camaleava por puro medo, não confiava na minha capacidade de lidar com os predadores e de ser bela em minha própria essência. Agora sinto que estou deixando de ser camaleoa para ser passarinha.



Passarinho voa por todo canto entoando seu canto, dançando sua dança, mostrando suas cores. Conhece lugares novos todos os dias, experiencia um monte de coisas e no fim do dia volta pra descansar no ninho que é lugar seguro. Eu posso ser-me em movimento, posso ser-me em muitos lugares e de muitas formas, desde que haja a segurança de um lugar para onde possa voltar. Quando meu corpo-casa passa a ser meu lugar de segurança, quando ganho a consciência de que me tenho, me acolho, me curo, me basto... Quando passo a ser meu próprio baluarte, então posso sair passarinhando pelo mundo. O medo torna-se pequeno, minha atitude camaleônica desaparece porque não me interessa mais proteger-me das experiências, interessa-me vivê-las intensa e verdadeiramente. Não existe mais o medo de ser inadequada, alguns lugares me cabem, outros não e agora que posso voar eu posso simplesmente ir passarinhando enquanto encontro os lugares onde caibo, agora sou eu que escolho ficar ou ir e não fico mais onde me aperta, eu quero estar onde me cabe, quero estar onde me expanda.



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